Teerã, 11 de fevereiro de 2026 – Enquanto o regime iraniano mobilizava multidões estatais para comemorar o 47º aniversário da Revolução Islâmica de 1979, com marchas, bandeiras palestinas e gritos de “Morte à América” e “Morte a Israel”, a noite anterior revelou uma realidade oposta nas residências da capital e de outras cidades.
Na véspera do feriado, em 10 de fevereiro, moradores de bairros como Narmak, Ekbatan, Majidieh, Naziabad, Chitgar e Nobahar (em Teerã e Karaj) subiram em varandas, telhados e janelas para entoar slogans diretos contra o poder: “Morte a Khamenei”, “Morte ao ditador”, “Morte à República Islâmica” e “Morte ao opressor, seja rei ou líder”. Os gritos se misturaram ao barulho de fogos de artifício patrocinados pelo governo e às chamadas oficiais de “Allahu Akbar” transmitidas por alto-falantes de mesquitas às 21h, criando um contraste sonoro dramático que viralizou em vídeos verificados por veículos como BBC, AFP, Iran International e DW News.
A ação coordenada, semelhante às tradicionais “protestos de telhados” dos últimos anos, ocorreu apesar do reforço máximo de segurança e da repressão recente. O levante de dezembro de 2025 a janeiro de 2026 — desencadeado por crise econômica, inflação galopante, cortes de energia e água — evoluiu para um dos maiores desafios ao regime desde 1979. Grupos de direitos humanos, como HRANA e Iran International, estimam dezenas de milhares de mortos na repressão (alguns relatos chegam a mais de 36 mil), prisões em massa e execuções sumárias, incluindo casos de manifestantes transferidos para solitária com risco iminente de enforcamento público.
No dia 11 de fevereiro, as comemorações oficiais lotaram a Praça Azadi em Teerã e ruas de centenas de cidades, com participantes carregando retratos do aiatolá Ali Khamenei e do fundador Ruhollah Khomeini, caixões simbólicos com bandeiras dos EUA e fotos de comandantes americanos e da OTAN. O presidente Masoud Pezeshkian discursou pedindo desculpas pelos “defeitos” e “tristeza” causados pela repressão recente, atribuindo parte da narrativa a “propaganda ocidental”, enquanto reiterava que o Irã não busca armas nucleares. Khamenei, em mensagem publicada, afirmou que as marchas “multiplicariam a glória da nação” e forçariam as “potências dominantes” a recuar.
A tensão se agrava com pressões externas: negociações nucleares frágeis com os EUA, ameaças de reforço militar americano na região (incluindo porta-aviões) e sanções que aprofundam a crise interna. Enquanto o regime projeta unidade forçada nas ruas, os ecos noturnos das varandas — amplificados por canais de oposição no exílio e redes sociais — sinalizam que a insatisfação popular permanece intensa, alimentada por demandas por liberdades, justiça e mudança de regime.
O 47º aniversário da Revolução Islâmica expõe, mais uma vez, a fratura profunda entre a narrativa oficial do poder teocrático e a realidade vivida por milhões de iranianos nas ruas, casas e telhados de suas cidades.