O presidente francês, Emmanuel Macron, renovou com força seu apelo por uma maior integração financeira na União Europeia, defendendo a criação de uma capacidade comum de endividamento por meio de eurobonds (títulos de dívida conjunta emitidos pela UE). Em entrevista publicada na terça-feira (10/02/2026) a vários veículos europeus, Macron argumentou que “chegou o momento” de a Europa lançar esse mecanismo para financiar investimentos estratégicos e evitar ser “varrida” pela competição entre EUA e China.
Macron destacou que a UE precisa de cerca de €1,2 trilhão por ano em investimentos públicos e privados para áreas como:
- Tecnologias verdes e digitais (transição ecológica e IA)
- Defesa e segurança
- Inovação estratégica
“Agora é o momento de lançar uma capacidade comum de endividamento para essas despesas futuras, eurobonds orientados para o futuro”, afirmou o líder francês. Ele enfatizou que a Europa está “pouco endividada” em comparação com EUA e China, e que usar essa margem de endividamento seria um “erro grave” não explorar. Além disso, Macron viu na dívida comum uma forma de desafiar a hegemonia do dólar: com mercados globais buscando alternativas seguras aos Treasuries americanos (em meio a tensões políticas nos EUA), a UE poderia oferecer “dívida europeia” como ativo atraente, aproveitando suas instituições democráticas e estabilidade.
Contexto e motivações
A proposta vem em um momento de crise de competitividade europeia, agravada por:
- O “choque” das políticas de Trump (tarifas, ataques ao Fed e protecionismo)
- A ascensão chinesa em tecnologia e manufatura
- Orçamento da UE limitado, que não permite investimentos massivos sem novas ferramentas
Macron defendeu uma Europa como “potência independente”, com mercado único mais integrado, decisões por maioria qualificada em alguns temas e uma “Europa a duas velocidades” se necessário. Ele mencionou o “momento Groenlândia” (referência a crises recentes que forçaram união) para impulsionar reformas econômicas.
Reações e divisões
A ideia enfrenta resistência imediata, especialmente da Alemanha. O chanceler Friedrich Merz e o governo alemão rejeitaram a proposta horas após a entrevista, chamando-a de “distração” e priorizando soluções para o “problema de produtividade” europeu em vez de mais dívida. Países “frugais” do Norte (como Países Baixos e Áustria) historicamente se opõem a mecanismos que possam levar a transferências financeiras permanentes para o Sul.
A proposta ecoa o NextGenerationEU (fundo de €750 bilhões emitido durante a pandemia de COVID-19), que foi bem-sucedido mas temporário. Macron busca torná-lo permanente para setores estratégicos, mas analistas veem pouca chance de avanço rápido antes do summit informal de líderes da UE (previsto para esta semana em um castelo belga), focado em competitividade.
O debate reacende divisões Norte-Sul na UE, em um ano de eleições em vários países e pressão externa crescente. Se aprovada, uma dívida comum poderia impulsionar a autonomia estratégica europeia, mas exige consenso de 27 membros — algo historicamente difícil.